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O bonde desgovernado – paradoxo moral

Citações
PUBLISHED: junho 30, 2018

Para saber se uma sociedade é justa, basta perguntar como ela distribui as coisas que valoriza – riqueza, deveres e direitos, poderes e oportunidades, cargos e honrarias. Uma sociedade justa distribui esses bens de maneira correta; ela dá a cada indivíduo o que lhe é devido. As perguntas difíceis começam quando indagamos o que é devido às pessoas e por quê.

Para vermos como se dá o processo de raciocínio moral, vamos analisar uma situação hipotética, muito discutida por filósofos, o dilema moral do “bonde desgovernado”.

Suponha que você seja o motorneiro de um bonde desgovernado avançando sobre os trilhos a quase 100 quilômetros por hora. Adiante, você vê cinco operários em pé nos trilhos, com as ferramentas em mãos. Você tenta parar, mas não consegue. Os freios não funcionam. Você se desespera e sabe que deve tomar uma decisão, porque, se não fizer nada, cinco operários morrerão.

De repente, você nota um desvio para a direita. Há um operário naqueles trilhos também, mas apenas um. Assim, você pode desviar o bonde para a direita, matando apenas esse único trabalhador e poupando a vida dos outros cinco.

O que você vai fazer? Muitas pessoas diriam que escolheriam virar o bonde e matar apenas um operário, sob o argumento que essa atitude é a menos trágica. Portanto, sacrificar uma só vida a fim de salvar outras cinco certamente parece a coisa certa a se fazer.

Agora, consideremos outra versão dessa história. Desta vez, você não é o motorneiro, e sim um espectador, de pé em uma ponte acima dos trilhos, onde estão cinco operários. Mais uma vez, os freios não funcionam. O bonde está prestes a atropelar os operários. Você se sente impotente para evitar o desastre – até que nota, perto de você, na ponte, um homem gordo. Você poderia empurrá-lo sobre os trilhos, no caminho do bonde que se aproxima. Ele morreria, mas os cinco operários seriam poupados.

Empurrar o homem pesado sobre os trilhos seria a coisa certa a se fazer? Muitos diriam “É claro que não. Seria terrivelmente errado empurrar o homem sobre os trilhos”.

Empurrar alguém de uma ponte para uma morte certa realmente parece ser uma coisa terrível, mesmo que isso salvasse a vida de cinco inocentes. Entretanto, cria-se agora um quebra-cabeça moral: Por que o princípio que parece certo na primeira hipótese (sacrificar uma vida para salvar cinco) parece errado no segundo?

Na hipótese do primeiro caso, os números são levados em conta – é melhor salvar cinco vidas do que uma – por que, então, não devemos aplicar esse mesmo princípio ao segundo caso e empurrar o homem gordo? Realmente, parece cruel empurrar o homem para a morte, mesmo que por uma boa causa. Mas é menos cruel matar um homem atropelando-o com um bonde?

Talvez a razão pela qual seja errado empurrar é que fazendo isso estaríamos usando o homem na ponte contra a sua vontade. Ele não escolheu estar envolvido, afinal. Estava apenas ali, de pé.

O mesmo, no entanto, poderia ser dito sobre o homem que está trabalhando no desvio do trilho. Ele também não escolheu se envolver. Estava apenas fazendo seu trabalho, e não se oferecendo para sacrificar a vida em um acidente com um bonde desgovernado.

Talvez a diferença moral não resida no efeito sobre as vítimas – ambas terminariam mortas -, e sim na intenção da pessoa que toma a decisão. Como motorneiro do bonde, você pode defender sua escolha de desviar do o veículo alegando que não tinha a intenção de matar o operário no desvio, apesar de isso ser previsível.

Entretanto, o mesmo é verdadeiro para o caso do empurrão. A morte do homem que você empurrou da ponte não é essencial para seu propósito. Tudo que ele precisa fazer é parar o bonde; se ele conseguir fazer isso e sobreviver, você ficará maravilhado.

Ou talvez, pensando melhor, os dois casos devessem ser governados pelo mesmo princípio. Ambos envolvem a escolha deliberada de tirar a vida de uma pessoa inocente a fim de evitar uma perda ainda maior de vidas. Talvez sua relutância em empurrar o homem da ponte seja meramente um escrúpulo, uma hesitação que você precise superar. Empurrar um homem para a morte com as próprias mãos realmente parece mais cruel do que girar o volante de um bonde. Mas fazer a coisa certa nem sempre é fácil.

Não é simples explicar a diferença moral entre esses casos – porque desviar o bonde parece certo, mas empurrar o homem da ponte parece errado. Todavia, note a pressão que sentimos para chegar a uma distinção convincente entre eles – e, se não pudermos, para reconsiderar nosso julgamento sobre a coisa a fazer em cada caso. Às vezes pensamos no raciocínio moral como uma forma de persuadir os outros. Mas é também uma forma de resolver nossas convicções morais, de descobrir aquilo em que acreditamos e por quê.

Bibliografia:

Justiça – O que é fazer a coisa certa / Michael J. Sandel; tradução 17ª ed. de Heloisa Matias e Maria Alice Máximo. 17ª edição – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

 

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